Termo
de Responsabilidade
Maicol Jacson Wenceslau*,
23 anos, alcoolismo crônico e suspeita de
estar sob efeito de droga pesada, dá entrada
no Pronto Atendimento (PA) de Querubim, solicitando
curativo no couro cabeludo.
O Dr. João Almeida*,
plantonista da Unidade, ao atendê-lo, constata
uma ferida corto-contusa de aproximadamente sete
centímetros. Indica realização
de sutura, VAT e solicita RX de crânio.
O paciente, muito inquieto
e agitado, não permite nenhum dos procedimentos.
Interessa-lhe apenas o curativo. Desacata os profissionais
da Unidade e ameaça ir embora. Antes que
saia, o Dr. João o faz assinar um Termo
de Responsabilidade, onde se lê: "recusei
atendimento médico e assumo total responsabilidade
por qualquer agravo que, porventura, ocorra ao
meu estado de saúde".
Cerca de oito horas depois,
o paciente retorna à Unidade, trazido por
familiares. Na admissão, encontrava-se
em coma profundo. Sua mãe informou que
após a bebedeira, chegou em casa e dormiu.
Há cerca de 30 minutos, apresentou uma
"convulsão, veio a falta de ar e começou
a roncar". Como a evolução
foi drástica, a família responsabilizou
o Dr. João pelo óbito e apresentou
denúncia ao CRM.
Comentários
Esse é um fato
comum no atendimento diário em nossos PA.s
e PS.s Pacientes como Maicol Jacson acarretam
grande transtorno e a sua recusa em permanecer
na Unidade, muitas vezes é vista com alegria
pelos funcionários do setor.
Porém cuidado!
A assinatura do citado Termo de Responsabilidade
não resguarda o médico em casos
como esse, pois o paciente não possuía
estado de lucidez compatível com tomada
de decisão tão séria. Sua
assinatura não pode ter valor, uma vez
que ela atenta contra a sua própria vida.
Outrossim, o médico
é o profissional capacitado a prever possíveis
complicações que coloquem em risco
a vida do cidadão. Nestas condições,
caso o paciente se ausente, o médico não
poderá colocar em prática as medidas
que irão resguardar a sua integridade.
Trata-se de uma situação crítica,
momento em que a vontade do paciente deve sujeitar-
se ao dever/obrigação do médico.
Caso seja impossível
segurá-lo, recorra à Polícia
Militar. Se necessário, solicite a emissão
de um Boletim de Ocorrência e arrole testemunhas,
comprovando a fuga do doente. Uma forma importante
de dividir responsabilidades é convocar
os familiares. Esclareça-lhes os riscos
e peça que convençam o paciente
pela permanência.
Situação
distinta é aquela de menor gravidade e/ou
quando o paciente prefere ser atendido em outro
serviço de saúde. Nestes casos,
não há empecilho para a sua liberação
e o Termo de Responsabilidade deve ser usado.
Importante conter no corpo do texto que, após
avaliação não se constatou
alterações clínicas de maior
gravidade e que, a pedido da família, o
paciente está sendo transferido para atendimento
médico em outro serviço.
*Os nomes usados são
fictícios
Dr. Alberto Gigante Quadros
Conselheiro do CRMMG |