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Ano 4 Nº 44 Maio de 2006

Ciência, tecnologia e prática médica: a volta à clínica

Nos últimos 50 anos ocorreu uma evolução tecnológica nunca vista na história da humanidade. Esses progressos tecno-científicos produzem a ilusão de que todos os problemas de saúde podem ser solucionados com uma prática médica estritamente científica. Mas a medicina não é uma ciência pura.

A medicina clínica é a profissão que cuida das pessoas doentes, utilizando sim as ciências correlatas. O antigo aforismo "Medicina é Ciência e Arte" deve ser traduzido hoje como "Medicina é Ciência e Humanismo". O que era chamado de arte é ver o paciente como ser humano na sua totalidade biopsicosocial.

De nada adiantam os mais modernos e sofisticados exames complementares, equipamentos e medicamentos de última geração se não houver por trás deles um médico que, com sua percepção e julgamento, oriente criteriosamente sua utilização e interprete-os frente ao paciente único na sua singularidade.

Podemos afirmar que a principal causa de erros e desencontros médicos, na atualidade, é o desconhecimento, consciente ou inconsciente, da subjetividade do paciente. A cultura tem produzido ciência com eficácia e ordenamento, mas curiosamente nunca se viu do lado do ser humano tanta desordem e mal estar, fazendo-o sentir cada vez mais desamparado e doente.

Médicos e pacientes podem acreditar que a tecnologia é capaz de substituir a consulta médica. É comum o paciente pensar: "vou fazer um check-up, farei todos os tipos de exames e ficarei sabendo tudo que tenho". Ou então o médico imaginar que não precisa fazer exame clínico: "é só pedir todos os exames e terá o diagnóstico". É o grande erro da atualidade.

A relação médico-paciente constitui parte fundamental da prática médica e o exame clínico (anamnese e exame físico) o principal elemento da medicina: é o cerne da ciência e a lógica da medicina clínica.

Existe uma tendência errônea de considerar as informações subjetivas como não-científicas e de menor importância. Mas na Medicina Clínica, é através das informações do paciente, carregadas de subjetividade, que chegamos ao nosso objetivo. É este o nosso instrumento científico: a habilidade de entrevistar para obtermos dados mais completos e precisos. É uma técnica que precisa ser aprendida, exige formação e método, objetividade, precisão, alta especificidade, alta sensibilidade e reprodutibilidade. E, além disso, o paciente deve ser visto como um todo.

Com isto, estamos presenciando o retorno ao Clínico. O paciente, com seu sintoma, já passou por todos os especialistas, fez todos os exames e continua sem diagnóstico. Falta um elemento integrador, abrangente, com visão da subjetividade do paciente e que correlacione os dados de exames e da história dele.

O ideal é que toda pessoa possua seu clínico que o atenda em posto de saúde ou em clínica particular. Esse profissional que já conhece o paciente é capaz de resolver de 80 a 90% de sua demanda e, se necessário, recorrer à avaliação de um especialista, mas continua coordenando o tratamento desse paciente.

Defendemos a nova postura do clínico nos dias de hoje: o médico com sólido embasamento teórico, com conhecimento das evidências científicas, que vai coordenar e integrar o tratamento do paciente. O profissional vai agir com firmeza e ética nas medidas eficazes de prevenção primária e secundária, mas com conhecimento de sua subjetividade, entendendo que a doença não se confina em partes do corpo, mas se estende nas relações da pessoa com os outros, a família, a comunidade e com seus próprios temores e dificuldades. Isto demanda certo tempo de duração da consulta médica. Por isto, precisamos lutar por um atendimento médico de qualidade, ético e que respeite o profissional e o paciente. Só assim, vamos poder usufruir dos benefícios tecno-científicos cada vez mais disponíveis na atualidade.

 

Dra. Télcia Vasconcelos Barros Magalhães

Presidente da Sociedade Brasileira de Clínica Médico-Regional MG,
Especialista e Mestre em Clínica Médica