| Morte
ou Mamba |
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Qual deve ser a nossa conduta diante dos
doentes críticos? A realidade
nos cobra uma reflexão séria
sobre o assunto. Com esse objetivo,
reproduzimos o artigo abaixo, de autoria
do Dr. José Pio Furtado, Presidente
da Comissão de Fiscalização
do CREMERS |
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"EM DIAS DE REFLEXÃO me ocorre uma estória
velha, porém cuja moral está
atualíssima. Certa feita, três
exploradores foram capturados por uma primitiva
e selvagem tribo. Levados ao chefe, em meio
ao alarido geral dos nativos por terem profanado
seu território, o todopoderoso ofereceu-lhes
duas opções: morte ou Mamba,
já advertindo que Mamba era uma peçonhenta
serpente cuja picada provocava indescritível
sofrimento, seguido de morte quase certa.
Os dois primeiros
escolheram Mamba e, antes de morrer, experimentaram
um atroz sofrimento, com paroxismos de dores
lancinantes, violentas convulsões
e asfixia lenta e gradativa, além
de sangramentos por todos os poros e orifícios
durante intermináveis horas.
Diante desse infortúnio,
o terceiro preferiu logo uma misericordiosa
morte, mas o chefe assim lhe falou: "Morte
você terá, mas, primeiro, um
pouquinho de Mamba". A moral e a reflexão
desta estória para nós médicos,
que lutamos diuturnamente contra a morte
é: será que não estamos
oferecendo muita Mamba aos nossos pacientes
terminais nas UTIs? Aplicando toda a tecnologia
hoje disponível, capaz de manter
a vida sob circunstâncias questionáveis
e indignas, não estamos prolongando
infindas aflições a pacientes
e familiares, produzindo verdadeiras distanásias?
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Volta e meia vemos familiares
literalmente rezando para que termine o tormento
dos seus queridos. Por que hoje está cada
vez mais difícil morrer natural, serenamente
e em paz? As descobertas científicas e
toda a tecnologia incorporada só se justificam
em benefício do homem em todas as instâncias
da sua vida e da sua morte. Perseguimos a sabedoria
ou o ponto exato de permitir a morte com dignidade,
sagrado direito de todo o indivíduo que,
aliás, tem a mesma magnitude do nascer
digno, visto que nascer e morrer são dois
processos fisiológicos que definem a existência.
João Paulo II
escolheu uma morte digna. Seu último ato
de valentia, humildade e dignidade- uma morte
sem tecnologia- deve ser exemplarmente registrado
como uma aposta na vida e uma aceitação
dos limites dos homens.
Nós médicos,
mais do que lutar contra a morte, lutamos pela
defesa da vida, pois do contrário perderemos
sempre, visto ser a morte inexorável. Assim,
temos que, por todos os meios, tentar oferecer
uma morte humanizada, o que já seria o
derradeiro e vitorioso cumprimento de nossa missão.
Apesar de não
termos as definitivas respostas para essas interrogações,
através da bioética estamos aprendendo
e tentando dirimir estes conflitos éticos,
morais e filosóficos".
Dr. José Pio Furtado
Presidente da Comissão de Fiscalização
do Conselho Regional de Medicina
do Rio Grande do Sul, CREMERS.
* Publicação
autorizada pelo autor
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