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Ano 4 Nº 44 Maio de 2006
Morte ou Mamba

Qual deve ser a nossa conduta diante dos doentes críticos? A realidade nos cobra uma reflexão séria sobre o assunto. Com esse objetivo, reproduzimos o artigo abaixo, de autoria do Dr. José Pio Furtado, Presidente da Comissão de Fiscalização do CREMERS

"EM DIAS DE REFLEXÃO me ocorre uma estória velha, porém cuja moral está atualíssima. Certa feita, três exploradores foram capturados por uma primitiva e selvagem tribo. Levados ao chefe, em meio ao alarido geral dos nativos por terem profanado seu território, o todopoderoso ofereceu-lhes duas opções: morte ou Mamba, já advertindo que Mamba era uma peçonhenta serpente cuja picada provocava indescritível sofrimento, seguido de morte quase certa.

Os dois primeiros escolheram Mamba e, antes de morrer, experimentaram um atroz sofrimento, com paroxismos de dores lancinantes, violentas convulsões e asfixia lenta e gradativa, além de sangramentos por todos os poros e orifícios durante intermináveis horas.

Diante desse infortúnio, o terceiro preferiu logo uma misericordiosa morte, mas o chefe assim lhe falou: "Morte você terá, mas, primeiro, um pouquinho de Mamba". A moral e a reflexão desta estória para nós médicos, que lutamos diuturnamente contra a morte é: será que não estamos oferecendo muita Mamba aos nossos pacientes terminais nas UTIs? Aplicando toda a tecnologia hoje disponível, capaz de manter a vida sob circunstâncias questionáveis e indignas, não estamos prolongando infindas aflições a pacientes e familiares, produzindo verdadeiras distanásias?

Volta e meia vemos familiares literalmente rezando para que termine o tormento dos seus queridos. Por que hoje está cada vez mais difícil morrer natural, serenamente e em paz? As descobertas científicas e toda a tecnologia incorporada só se justificam em benefício do homem em todas as instâncias da sua vida e da sua morte. Perseguimos a sabedoria ou o ponto exato de permitir a morte com dignidade, sagrado direito de todo o indivíduo que, aliás, tem a mesma magnitude do nascer digno, visto que nascer e morrer são dois processos fisiológicos que definem a existência.

João Paulo II escolheu uma morte digna. Seu último ato de valentia, humildade e dignidade- uma morte sem tecnologia- deve ser exemplarmente registrado como uma aposta na vida e uma aceitação dos limites dos homens.

Nós médicos, mais do que lutar contra a morte, lutamos pela defesa da vida, pois do contrário perderemos sempre, visto ser a morte inexorável. Assim, temos que, por todos os meios, tentar oferecer uma morte humanizada, o que já seria o derradeiro e vitorioso cumprimento de nossa missão.

Apesar de não termos as definitivas respostas para essas interrogações, através da bioética estamos aprendendo e tentando dirimir estes conflitos éticos, morais e filosóficos".

 

Dr. José Pio Furtado
Presidente da Comissão de Fiscalização

do Conselho Regional de Medicina do Rio Grande do Sul, CREMERS.