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Ano 4 Nº 44 Maio de 2006
Saquinho de sal

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Dona Domingas era terrível. Velha renitente, resmungona, excessivamente doente, tinha sido nos áureos tempos da mocidade grande e prendada costureira, dessas que ajeitavam as noivas para o altar, bordadeira de vestidos caros, panos finos importados, bem relacionada entre a freguesia rica e perdulária.

A velhice lhe havia trazido apenas saudades e a doença.

Chagásica, o coração vinha progressivamente aumentando de tamanho, o que já lhe proporcionava o desconforto da fadiga fácil, enorme esforço a pequenas caminhadas e, para agravar, um inchaço volumoso nas pernas. Este era para ela a maior cruz.

- "Eu tinha as pernas bonitas, bem torneadas, doutor, olha como ficou"-lamentava a velha costureira. A paixão de dona Domingas eram aquelas pernas, antes bonitas e admiradas pela moçada da época, hoje mambembes, grotescas, como a sofrer de elefantíase. O sal da comida estava proibido há muito, sendo uso obrigatório a medicação específica para a doença. Mas a paciente não melhorava. Certo dia, fui vê-la em casa. - "Se a senhora não melhorar até amanhã, vou interná- la uns dias", - ameacei. - "Tá bão", balbuciou ela fadigada, cabeça baixa, pensamento longe. Conta a família que, logo após minha visita, dona Domingas manifestou vontade de voltar, nem que por distração, a costurar um pouco, " para ver se distraía da doença". Desejo estranho, para quem não trabalhava há tanto tempo, porém sem a interferência dos filhos, que, desconfiados, assistiam à atividade da velha, costurando pequenos pedaços de retalhos, como a distrair naquela profissão que tanto adorava. Dia seguinte, como não havia melhora no estado geral dela, optei por interná-la, conforme o prometido. Em regime de hospital, dona Domingas também não melhorava. Conversa séria com a responsável pela cozinha, que me garantiu estar a paciente alimentando absolutamente sem sal, conforme prescrevi. Havia algo errado. Em pouco tempo, porém, descobri que estava sendo enganado. Numa bela manhã, ao passar a visita de rotina, tentei ajudar a paciente a se sentar na cama. Ao colocá-la sentada, abracei também o travesseiro, que ficou suspenso entre meu braço e as costas da paciente. Aí percebi nitidamente: repousando sobre a cama, escondido por debaixo onde deveria estar o travesseiro, um alvo saquinho costurado com capricho por uma costureira de talento. Dentro dele, sal de cozinha.

 

"Causo" retirado do livro "Confessionário geral - Estórias e apuros de um médico do interior" de Dr. Milton Decina Salge, da cidade de Uberaba.