| Saquinho de sal |
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experiências curiosas
que fazem parte do cotidiano
dos médicos de
Minas Gerais.
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Dona Domingas era terrível.
Velha renitente, resmungona, excessivamente doente,
tinha sido nos áureos tempos da mocidade
grande e prendada costureira, dessas que ajeitavam
as noivas para o altar, bordadeira de vestidos
caros, panos finos importados, bem relacionada
entre a freguesia rica e perdulária.
A velhice lhe havia trazido
apenas saudades e a doença.
Chagásica, o coração
vinha progressivamente aumentando de tamanho,
o que já lhe proporcionava o desconforto
da fadiga fácil, enorme esforço
a pequenas caminhadas e, para agravar, um inchaço
volumoso nas pernas. Este era para ela a maior
cruz.
- "Eu tinha as pernas
bonitas, bem torneadas, doutor, olha como ficou"-lamentava
a velha costureira. A paixão de dona Domingas
eram aquelas pernas, antes bonitas e admiradas
pela moçada da época, hoje mambembes,
grotescas, como a sofrer de elefantíase.
O sal da comida estava proibido há muito,
sendo uso obrigatório a medicação
específica para a doença. Mas a
paciente não melhorava. Certo dia, fui
vê-la em casa. - "Se a senhora não
melhorar até amanhã, vou interná-
la uns dias", - ameacei. - "Tá
bão", balbuciou ela fadigada, cabeça
baixa, pensamento longe. Conta a família
que, logo após minha visita, dona Domingas
manifestou vontade de voltar, nem que por distração,
a costurar um pouco, " para ver se distraía
da doença". Desejo estranho, para
quem não trabalhava há tanto tempo,
porém sem a interferência dos filhos,
que, desconfiados, assistiam à atividade
da velha, costurando pequenos pedaços de
retalhos, como a distrair naquela profissão
que tanto adorava. Dia seguinte, como não
havia melhora no estado geral dela, optei por
interná-la, conforme o prometido. Em regime
de hospital, dona Domingas também não
melhorava. Conversa séria com a responsável
pela cozinha, que me garantiu estar a paciente
alimentando absolutamente sem sal, conforme prescrevi.
Havia algo errado. Em pouco tempo, porém,
descobri que estava sendo enganado. Numa bela
manhã, ao passar a visita de rotina, tentei
ajudar a paciente a se sentar na cama. Ao colocá-la
sentada, abracei também o travesseiro,
que ficou suspenso entre meu braço e as
costas da paciente. Aí percebi nitidamente:
repousando sobre a cama, escondido por debaixo
onde deveria estar o travesseiro, um alvo saquinho
costurado com capricho por uma costureira de talento.
Dentro dele, sal de cozinha.
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