Edições Anteriores

 

Seções
Capa
Palavra CRM
Expediente
Agenda do Médico
Corregedoria
Relação Médico-Paciente
Charges
Inédito
Uma junta médica para tratar os nossos problemas
Alerta
Cirurgia de redução do estômago: Importância do acompanhamento pós-operatório
Opinião
Proposta de regulamentação das farmácias de manipulação
Ética em debate
Médicos e os riscos das fórmulas para emagrecimento
Atualidades
Descentralizando para atender médicos do interior
Posse da nova diretoria da Associação Médica de Minas Gerais
Riscos de casos de sarampo no país
Artigo
O a(na)lfabeto da medicina alternativa
Bem viver
Paixão pelas orquídeas compensa o stress da rotina médica
Memória
Dr. Arnaldo Godoy
Artigo
Ano 1 Nº 40 Setembro de 2005

O a(na)lfabeto da medicina alternativa

 

Reportagem publicada numa conceituada revista de circulação nacional, em 25 de fevereiro deste ano, prestou grande contribuição sobre o polêmico assunto medicina alternativa no Brasil. Somos campeões da automedicação alopática e estamos também nos especializando em métodos terapêuticos chamados "alternativos", cuja veracidade científica, na maioria deles, não resistiria a mais banal das avaliações, se realizada com o mínimo rigor e seriedade.

Alternativo na língua portuguesa significa sucessão de duas coisas mutuamente exclusivas. Portanto, a medicina não pode excluir a si mesma. Este termo mais parece uma estratégia de marketing para atrair um mercado cada vez mais vulnerável pela descrença na prestação do serviço médico, fruto, dentre outras coisas, da progressiva desvalorização e exploração do profissional médico.

Assim, não pode ser considerada uma especialidade médica, muito menos ter cursos de pós-graduação reconhecidos pelos órgãos competentes. Ademais, se está excluída da Medicina, não pode ser fiscalizada pelo Conselho, o que se constitui num grave problema para a população.

Medicina é binômio "arte médica e ciência". Esta última é uma conquista que legitima o ato médico e protege o paciente de condutas sem comprovada eficácia. Todo e qualquer tratamento pressupõe a existência de riscos e benefícios. O problema é que boa parte das propostas chamadas "alternativas" não pode responder a esta questão, pois não passou por estudos cientificamente corretos para tal finalidade. Muitas são baseadas em livros como este citado na reportagem, escritos não se sabe por quem, editado sabe-se lá onde, contudo muito vendido a despeito da completa inexistência de confiabilidade.

Todas as propostas terapêuticas comprovadamente eficazes são parte da medicina, não importa se estão associadas a recomendações dietéticas, uso de medicamentos "naturais", chás, etc. Assim, a Medicina é única e NUNCA alternativa. Santificar dietas, chazinhos e demonizar medicamentos é um ato irresponsável, leviano e recheado de má fé.

Certas condutas, defendidas por alguns que profetizam a medicina alternativa, mais se aproximam de alguma seita dessas que vivem da exploração da boa fé do nosso povo. Aliás, usam as mesmas armas e os mesmos meios de comunicação.

O livro citado na reportagem parece ser um verdadeiro estelionato, aliado a outros crimes como propaganda enganosa e completa falta de ética. Quem responderá por isso?

Caso a sociedade brasileira não se posicione agora, é possível que em breve tenhamos o "Direito Alternativo", a "Engenharia Alternativa", além de outras fantasiosas propostas de inserção no mercado de trabalho.

DR.RAYMUNDO PARANÁ

Professor Livre-Docente de Hepatologia Clínica da Universidade Federal da Bahia/Faculdade de Medicina

 

* Publicação autorizada pelo autor.